Um certo João de Barro.
Thairu Uhuru
João de Barro estava com sérios problemas onde morava. Sua vizinhança era ruim, baderneira e o deixava irritado em seu ninho. Decidiu-se então abandonar tudo e sair dali. Foi em busca dos seus antigos sonhos. Construir uma bela residência assim que surgisse o lugar próprio. Após algum tempo de procura escolheu um galho rígido de madeira nobre e farto em folhagens. De vista paradisíaca, a árvore estava de frente para um bosque de pinheiros que lhe oferecia um aroma sempre agradável. Estava assim formado o seu ideal de vida, bastando somente por em prática as bases da construção. Feliz com o seu mais nobre objetivo partiu para a proposta do empreendimento. A construção.
João era bem formado e entendia de construção como ninguém, afinal passara a vida edificando para si e outros amigos que de sua ajuda necessitavam.
Construiu o seu ninho após intenso período de trabalho e ao final estava terminada a sua obra. Linda a construção. Digna de um nobre pássaro como ele. Dava prazer de ver aquele monumento de rara beleza ali edificada, diferenciando-se de todas as demais arquiteturas comuns ao seu redor. Orgulhoso de si e ansioso, João mudou-se imediatamente. Voava cantando toda a sua felicidade. Foi obstinado para o mais novo ninho repleto de investidas e promessas.
Em pouco tempo João de Barro conheceu uma bela fêmea com quem se casou após rápido e intenso namoro. Dividiram o ninho repleto, cheios de conquistas de uma vida feliz e para sempre a dois.
Como diziam - com ninho ou sem ninho, felizes para sempre - foi o que juraram na prova diante do altar do amor, naquele galho de dois enamorados e tantas testemunhas e convidados que assistiram a tudo entusiasmados.
A mulher de João de Barro, senhora gentil e dedicada que se mostrava, enfeitou aquele lar do seu jeito próprio, deixando-o ao mesmo tempo em que lindo pequeno demais para um casal espaçoso de tanto calor de amar. Perceberam que necessitavam de um espaço mais amplo para que a dedicada e caprichosa dama pudesse organizar a tudo.
João, então, começou a construir uma extensão ao lado do mesmo ninho, ou como dizer, um puxadinho. Era preciso manter aquele lugar antes que algum aventureiro o tomasse para si. E afinal, por que sair daquele paraíso?
Fez um corredor interligando os cômodos e assim passaram a residir num amplo quarto e sala que possibilitava a mulher de João preparar o lar ao seu prazer de viver. Flores e cortinas nas janelas, sala ampla e boa visão dos cômodos. Uma bela construção daquele pássaro que objetivava um futuro diferente. Ninho, doce ninho!
Fruto da boa vida que levava, em pouco tempo a fêmea engravidava, sonho do seu dedicado amor. Emprenhada pelo bem-estar de ambos vieram os filhotes. A ninhada ofereceu aos dois um lindo casal que renderam também uma nova preocupação ao pai, pois logo deveria aumentar ninho, de acordo com a extensão da família e sua comodidade. Ninho, doce ninho!
Em constantes conversas com a sua mulher resolveu que deixaria aquele habitat à altura do que lhe era mais caro, a família Barro. Investiu, então, na edificação do mais novo lar. Afinal era capaz e não precisava de apoio arquitetônico. Separou os melhores galhos, bem pequenos e rijos, capim seco e barro bem úmido. Mais uma empreitada para fazer valer seu amor pela família.
Sem réguas ou pranchetas, sem engenheiros ou mestres de obra, ele mesmo fizera de tudo se mostrando capaz em cada detalhe. Pronto, tudo em ponto de morar.
Linda que só, cheia de desenhos infantis, duas frentes para as mais belas paisagens que a vista lhe pudesse proporcionar. Um lindo duplex de três quartos, sala grande e arejada. Tudo muito cheio de fartura como imaginara João de Barro para a sua família. O ninho dos seus sonhos. Ninho, doce ninho, enfim!
A vida corria bem e sempre generosa. Festas aos fins de semana com saraus e corais infantis, todos cantavam felizes. Reuniões entre as fêmeas que pretendiam uma família tão linda e real quanto à de João. Passeios de férias e acampamentos constantes naquele bosque particular. Grandes revoadas de outras espécies vinham conhecer o construtor. Estudar sua obra. Pesquisar seus feitos. João evidenciava o óbvio. Com trabalho tudo de bom se consegue.
Mas o futuro não muito tardio preparava o seu mais sombrio absurdo. Ao som de uma serra elétrica, João, a sua família e todas as demais viram ruir os seus sonhos. Suas casas foram destruídas sem qualquer explicação ou razão que os fizesse entender o que se passava ali. Desconsolados, todos abandonaram seus ninhos e partiram dali para sempre em êxodo de seguidas e nervosas revoadas. Todos se separaram para sempre e seus sonhos se transformaram em terríveis pesadelos.
Chegando a cidade grande, João tentou comprar uma casa pelo Sistema Financeiro de Habitação e não conseguiu por falta de contracheque e comprovação de renda. Hoje vive com a sua família nos fundos de um caminho, numa comunidade carente, em área de risco, em um grande complexo aonde o correio não chega por inexistência de endereço. Onde todos vivem intranqüilos com as mazelas da pobreza. Vivem preocupados com os preços do aluguel e dos impostos. Passam necessidades de cortes constantes de água e luz. As trocas de tiros, dias de nervosismo e estresse ocupam a vida de todos.
João de Barro está sem trabalho e suas contas com atrasos constantes. Sem crédito na praça o seu nome consta na lista de maus pagadores do SPC. Devendo aos agiotas e traficantes, sua vida e de sua família corre risco. Por hora não se enverga ao crime.
Sem alimentação decente João, sempre que pode leva as xepas das feiras onde faz bico, sua única forma de sustentação.
Seus filhotes se renderam ao mundo do crime. O rapaz, traficante de lotes maciços de drogas, estava engaiolado, mas conseguiu fugir em bando, regressando a sua toca como esconderijo, hoje é aviãozinho e procurado pela polícia federal. A menina serve de parideira para outros de sua espécie após namoros rápidos. Ela é da vida e aluga sua barriga. Todos quase sempre doentes não têm direito ao Sistema Único de Saúde. Estão à mercê dos dias ruins.
João não sabe se conseguirá se aposentar, pois não desconta valores para o INSS nem paga carnê de autônomo. A sua mulher vez por outra guarda armas de bandidos e outras muambas na sua toca. Já está sendo observada pela polícia federal.
Todos acham que um dia tudo isso haverá de mudar.
Apesar de tudo estão ainda unidos.
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