Mar desvendado
Kiano Urafiki
1.
Esvai-se ao longe, no tempo de torpe lembrança,
De lamentos constantes, por mil noites, embarcado,
Sem homens, mulheres, sonhos ou sorriso criança,
Ulisses herói de Ilíaca, compaixão teria suplicado.
2.
No curso de além-mar, uma simples miragem,
Calmarias não provam afastar pensamentos vis,
Odisséias gregas não fazem contar na viagem,
De sórdidos pensamentos impuros e ardis.
3.
Além das terras distantes, às escuras, salteado,
No cumprimento banal de aprisionamento cruel,
Algoz é o homem de cá, que feroz embarcado,
Adorador da cruz, insano, malévolo é infiel.
4.
Paus de fogo em guarda, lamparinas, correntes,
Infortúnio maldito de qualquer sonho de vida,
Força bruta, mar em fúria e deuses ausentes,
Escuridão, tormenta se fez, em extrema medida.
5.
Qualquer açoite ao lombo é mais que clemência,
Negro morto sem vestígios é lançado ao mar,
Qualquer aflição é mais que mera coincidência,
Não lhe há, sequer, o direito princípio de chorar.
6.
Ah se o tempo por vaidade contasse retroceder,
Visão outra, de certo, do paraíso negro, emergiria,
Águas mais brandas, calmarias, cobririam o ser,
Outro tempo de ternura, bonança, portanto, seria.
7.
Nos porões fétidos de escuridão, clausura e horror,
Gemidos se arrastam libertos, pela eternidade do mar,
Indescritíveis de qualquer sensatez em tom de pavor,
Turbilhões de lamentos furtivos lançados no ar.
8.
Negro, negro... Tome em seu corpo a santa chibata,
Deixe que te rasgue, pois tomará parte de sua vida,
Eis o perfeito novo mundo de olhar fiel escravocrata,
De nova deusa mãe, que virá sob a sombra matricida.
9.
Gemido vívido feito chama no peito que queima,
Deixa de lamúrias negro, aviltante alma negra de cor,
Negro, negro sem Deus, tome seu castigo pela teima,
Teima de negro ser, negro, honre ao menos a dor.
10.
Atado às correntes, tormentos em realidade da vida,
Besta fera humana mareada em porão sem dia de luz,
Sem filho ou nação, sem destino ou alma devida,
Sem orgulho ou honra, derrotado diante da cruz.
11.
Negro, negro... Fura-lhe o olhar da serenidade,
Negro, negro... Sangra-lhe com espinhos a alma,
Não cabe no sonhar campos de lírios e eternidade,
Não cabe mais contar com seu mundo que há calma.
12.
Oh, Deus dos meus sonhos ajuda-me, meu criador!
Suplica o negro sem forças a pousar-se ainda de pé,
Afasta do meu ser tamanho sofrimento avassalador.
Renove seu poder sobre mim, mantenha-me firme na fé.
13.
Coração de pulso, mal palpitava na cor da coragem,
Ofegante, assustado, impróprio, batia no peito arredio,
Aos olhares cristãos, era nada mais que um selvagem,
Aos olhares mais puros, um bravo coração de gentio.
14.
Negro, negro, negro,... Negro da pele segregada,
Manifestação viril da mais pura labuta braçal,
Negra era a cor do sentimento e da chibata jogada,
Sobre a negra carne que pela cruz, representava o mal.
15.
Marcado a ferro e fogo, sob a ira do sol violento,
Nem a alma se salva, aos gritos de pranto e pavor,
A espada lhe corta o pescoço e a alma, sem lamento,
Corpo nu, alma nua, desnudados do pano, em louvor.
16.
Tal maldição se abateu sobre o homem dos mil e quinhentos,
Jaz na sua súplica de sangue, o verdadeiro herói negro de cor,
Cuja dor de estar só, sangrava a alma sem cor nos lamentos,
Na saga infame e cruel daqueles idos de Nosso Senhor.
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