Cabanos Insurretos
(ou Exaltação Cabana)
Akanni Ajamu
1.
No extremo norte litorâneo do Brasil,
Em solo deflorado por tropas rivais,
Sobre a pobreza daquelas terras gerais,
Negros, mestiços e índios... Em luta hostil.
2.
O enrijecido governo e a dor da fome
Gritante em alarmar o ribeiro em vida,
No silêncio do povo... De voz contida,
Provocando essa intensa batalha infame...
3.
E a liberdade desse povo, até então
Encurralado no coração da mata,
Defensivo à perseguição insensata
Da luta... Perdia a sua própria razão...
4.
Dos ideais a sustentar a insurgência,
A sair dos cantos, becos e vielas,
Armando seus soldados em sentinelas,
Dos tantos pobres a cobrar providência...
5.
Eram cabanos... Ribeiros... Execrados...
Heróis foram... Contra o mandatário central,
Desse estranho reino, absurdo e desigual,
De pseudo-bárbaros contagiados...
6.
Incendiados da vontade de vencer...
Mandaram os seus filhos a linha da morte,
E até o êxito da liberdade em sorte,
Esvaídos, prostravam em sangue a morrer.
7.
Chegando ao poder, os excluídos de lá,
As massas populares, tomaram parte
Mostrando aos inimigos de luta, a arte,
A valer pelo sonho que não tardará...
8.
Das mãos desse chão... Nada menos que causais,
Brotam as ferramentas pela igualdade,
Muitos morrem por qualquer outra verdade,
Acreditando em seus desejos mais reais.
9.
Sufocados por tanta ira embarcada,
Dos ingleses em seus navios armados,
Que despejando os seus covardes soldados,
A matar em defesa da causa errada...
10.
Nessa batalha em que Vinagre quedaria,
De subto, aos brados tomando a capital,
Angelim se toma por presidencial,
Vitória que a frota-anglo negaria.
11.
Aos milhares... Nativistas abatidos...
Separatistas vestidos de paisano,
Ultrajados pelo poder lusitano,
E abatidos em derrotas sem sentidos...
12.
E nas mentes de domínio... Calcinadas
As aflições menores, eram mais lentas,
E os anglo-navais em discórdia e tormentas
Erguiam vitórias nas cenas lutadas.
13.
Discordantes do mercado luso, em rigor
A conspiração rondava nas palhoças,
E os caramurus a incendiar as choças,
Transgressores, levavam a paz ao pavor...
14.
Buscando na monarquia, o seu prestígio
Contra os filhos da terra refugiados,
Arregimentando na pobreza os soldados
A batalhar pela terra em litígio.
15.
A qual identidade se pretende a visão,
Das lutas que, então, se abririam nas mentes?
Do além-mar sopravam as outras correntes,
Em vertentes liberais... Em nova versão...
16.
Contra-mão... Os sentimentos ilustrados
Que a Europa noutro livro ensinava,
Enfraquecendo a monarquia, que imperava
Cêntrica, de outros deveres incrustados...
17.
Sob o novo regime em fogo de poder...
Ganhava mundo o valor fisiocrático,
Destrutivo do centrismo despótico,
Trazendo a estas terras outro parecer.
18.
As batinas discordantes do anglo-terror
Davam ares de graça ao pobre ribeiro,
Libertando a sua alma por inteiro
Derrubando pela cruz em cenas de horror.
19.
Excedente era a conta dos flagelados,
Derrotados... Por liberdade a suplicar,
Por mais quanta mortandade apraz por lutar?
Destituídos, estão todos atados...
20.
A liberdade que não sobrevoava
Às suas cabeças, em valor, por prêmio,
Determinava dos ingleses um grêmio,
A eliminar a quem no chão estava.
21.
Matem-nos! A não sobrar um homem vivo,
Que mesmo longínquo, a Sua Majestade,
Pelo poder de magnanimidade
Premiará pelo infortúnio nocivo.
22.
E a soldo do Brasil, o inglês comandante,
Servindo no porto de Belém... Ancorado
Trucidava em seu porão o nosso soldado,
E o poder de glória passava adiante...
23.
À artilharia que asfixiara na guerra
Depondo na masmorra flutuante, então
Trezentos homens isolados no porão
E uma bandeira que sobre o escombro berra...
24.
Avante cabanos! Avante Ribeiros,
Que lutem os pobres a dominar Belém,
Matem! Não tomem o inimigo refém,
Organizem as fileiras dos tropeiros...
25.
Marchem, Valorosos batalhões armados!
Lutem! Lutem mais pela glória de lutar!
Não se deixem pelo inimigo derrotar,
Avante e armados contra o império, soldados!
26.
Na insolente província do Grão-Pará,
Lambida pelo fogo e furada a bala,
O terror-branco ao mata-cabano, estrala
Secos estampidos e a vida não mais há.
27.
Em frangalhos, cabanos capitularam,
Estilhaçados em solo conflitante,
E o sangue esvaído em batalha humilhante,
Pobres cabanos, mortos no chão ficaram.
28.
Chocarreiros, seduzidos pela luta
Dessa intensa trama revolucionária,
Atocaiados em missão ordinária,
De anglo poderes que o perdão não induta.
29.
Laureado é todo aquele que vence e abusa,
Mesmo expressando da liberdade a aversão?
Que vida sem objetivos é essa então,
De lutar sem paixão por uma causa escusa?
30.
Dispersando a todo grito de clemência,
A fúlgida paz, sangrada por esse chão
Produzia mortos em luta sem perdão,
Dessa estranha invasão contra a insurgência.
31.
Os ditames de falso poder, ainda
Nos mandatários do Brasil sem imperador,
Jovem estava para tornar-se senhor,
Punha o controle de poder na berlinda.
32.
O povo cabano, das choças a fugir
Desarvorado, em solo de externa invasão,
Perseguido pelo soldado inglês. O cão!
Na grande devastação da luta por vir.
33.
O paraense na floresta lutava
Ainda, para manter-se em vida alerta,
No Amazonas, em terra não descoberta,
Fugia confuso e não acreditava...
34.
Que a morte de ceifa abalando os doentes,
Pelas pestes atacando em outra luta,
Na floresta se rebelava absoluta,
Pelas pragas que ali plantavam sementes.
35.
E a terra separatista esfacelada,
De tantos regatos ao pouso ribeiro...
Tapuios, escravos, índios e o povo inteiro
Pousam eternos nessa guerra encarnada.
36.
Cessa o fogo ali... A paz anunciada
Iluminando as matas, a entretê-las,
Os fogos misturados ao céu de estrelas,
Venciam a tormenta de água espraiada...
37.
Aquietando os corações dessa terra,
A mansidão silencia a paz fincada
Fragilizando a liberdade exaltada,
Pelos ideais a lutar, quem não erra?
38.
A empunhadura da fé, no estandarte
Do verdadeiro Brasil de povo nobre
Da verdadeira façanha, nada encobre,
Nem os sanguinários de poder à parte.
39.
Dia após dia, os seus nomes ao relento
De uma luta idólatra sem plena razão.
Da pauta de guerra os seus nomes estarão
Esquecidos... E então jogados ao vento.
40.
Da redenção, pelas honras a lhes florir
No caju, ainda mostra a vermelhidão
Do Grão Pará, e seu povo cabano tão
Cheio de coragem ribeirinha a remir.
41.
Toda aflição da coragem recompensada,
Pelas honras ao chão de mortos cravados
A gritar seus feitos de heróis, consagrados
Nos ecos da floresta desvirginada...
42.
Que o Baixo Amazonas, a aurora tardia,
Possa saudar os ideais empunhados,
Se Iara surgir dos grotões orvalhados,
Perpetuará todo o feito do dia.
43.
Entregaram a sua vida em prol da fé
De que a História julgará esses atos
Se vencedores, estarão nos regatos
Bebendo da liberdade do povo até...
44.
Essa luta terá sido, de todo, em vão?
Os escravos serão livres das chibatas?
O império cederá as terras e as matas,
Desses ribeirinhos, povo pobre pagão?
45.
A vitória de uma luta, vem seguida
De respeito e reconhecimento do seu
Opressor, de palavras ao que prometeu
Antes mesmo que perdesse a sua vida.